OMELETE DE GAVINHAS

 O motivo da viagem foi uma apresentação de flamenco. Longe, muito longe. E valeu a pena dirigir tantas horas para ver a Lu no tablado, agitando graciosamente as saias, como as espanholas que eu vira pela primeira vez em Sevilha. Uma linda e pequena cidade, dessas que eu tanto amo, no interior. Com cheiro de capim úmido. Depois do show, seguimos adiante, para o pernoite em uma fazenda de extensos e verdes cafezais. Vista do casarão, no alto, a paisagem era ainda mais tocante, com um grande terreiro de secagem e a fileira de casinhas de lavradores lá adiante.

Como não houve aviso prévio, a cozinha estava deserta de gente e de ingredientes. Varadas de fome, Lu e eu fomos até onde morava o cuidador das terra e a mulher dele nos ofereceu um montão de ovos, recém colhidos do galinheiro. Tudo bem, mas havia que acrescentar mais alguma coisa à ceia. Acostumada à criatividade de uma família com parcos recursos, durante a infância, Lu imediatamente se lembrou de uma das invenções de sua linda mãe. E me levou à touceira de chuchus. “Pegue só as gavinhas”, ela indicou, já começando a pródiga colheita dessas terminações enroscadinhas, que permitem à planta se apoiar para crescer.

Momento mágico: quase anoitecendo, aroma de ocaso e uma infinidade de tenras gavinhas. Foi com elas, mais ovos e sal que Lu fez uma prato inesquecível e, para mim, único na vida. Omelete de gavinhas de chuchu. Aquele sabor me acompanha com uma delicadeza ímpar, a que transforma uma refeição em algo maior, capaz de nutrir o corpo e a alma, reavivando lições de infância (e de profunda amizade) para todo o sempre.

Com batatinha frita – Quando eu era criança, minha família também era frugal à mesa, pelo orçamento apertado. Nunca ninguém pensou em uma omelete de gavinhas, embora houvesse um chuchuzeiro, mas os ovos eram uma presença constante. Nos quintais de minha rua, não faltavam galinheiros. A produção do que a vó Ângela mantinha era repartida conosco, bem como o corredor que separava as duas casas, com uma entrada no fundo para facilitar a passagem. Mamãe gostava de fazer omelete com batatinhas fritas em pouco óleo. Quando douravam, ela despejava os ovos ligeiramente batidos com o garfo. Gosto, até hoje.

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2 comentários sobre “OMELETE DE GAVINHAS

  1. Adorei, Mizoca. E os detalhes. Não me lembrava. Veio-me o tempo de bailadora flamenca (preciso voltar) e a presença de meu pai naquela fazenda que continua linda, com muitas galinhas, mas sem o vai e vem do seu Afonso. Pena.

  2. Mi, essa comidinha é tudo de bom. Primeiro a novidade: as gavinhas. Só a ideia de novidade já é uma delícia. Mas a tortilla de patatas… essa sim é do coração. Feita com azeite de oliva. Era a alegria da infância. Tem outra ainda, que hoje até gosto mais, com patatas e cebollas. A receita? Está no meu livro de espanhol do Instituto Cervantes.

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