É domingo e faz frio. Lembro que tenho duas mandioquinhas na geladeira. Mais do que suficientes para uma bela sopa. Enquanto coloco os ingredientes no caldeirão – além delas, alho, um ramo de salsão, um tomate picado em pele nem sementes – lembro de Cecília. A penúltima vez que tivemos uma longa e delicada conversa foi há anos, quando ela ainda morava em um belo apartamento e sua filhinha estava na primeira escola, ainda. Ela me serviu exatamente uma sopa, da qual guardo não só o aroma, como a textura e o sofisticado sabor. Nada mais simples do que algo assim. E o simples, sabemos perfeitamente, é complicado. Assim era também nossa amizade de infância. Repleta de ocorrências familiares – como esquecer a antiga boneca de porcelana, que a mãe dela mantinha no quarto? Algo assustadora, com cabelos naturais, me parecia. Mas bela. Quanto falávamos, nós duas!
Vidas totalmente compartilhadas, desde os primeiros namoros (dela) ao meu casamento, quando ela veio, sorridente, com o futuro marido – uma união selada na igreja do Sagrado Coração de Jesus, se bem recordo. Ela tão esguia, elegante. E feliz.
Pois enquanto retomamos o diálogo, entre colheradas de sopa e extensas memórias de um longo periodo em que não nos vimos, ela se espantou com certos acontecimentos que me marcaram: “Como é que eu pude não estar a seu lado, quando tudo isso se passou?” É algo em que eu também penso, com imensa saudade. E uma certeza: toda vez que estivermos frente a frente haverá muito que dizer. Franca e delicadamente.
MANDIOQUINHA E COUVE-FLOR – Eu nunca repito uma sopa. Por falta de organização. Deixei de seguir receitas faz tempo. Gosto mais do inusitado. Da improvisação com o que há no armário e na geladeira. Então, nesta fria tarde de domingo, preparei a de mandioquinha com os ingredientes habituais, mais talos e pontas de couve-flor. A primeira parte, submeti ao processador. Os buquês branquinhos, separados bem pequenos, só no final, para que ficassem crocantes. No momento de servir, adicionei pedaços de queijo parmesão. Pura delícia.


l de tia Lola e a gente se servia direto do pé. Nada se compara àquela sensação de fazer as frutinhas explodirem na boca. Mas as cascas rendem belos sucos, cuja coloração se altera ao contato com outros ingredientes, como o abacaxi e o limão. A bendita casca também pode ser usada em geléias. Nunca é demais lembrar que nem mesmo a temperatura do cozimento acaba com os benefícios dessa maravilha.

